| TÓPICO DE FISIOTERAPIA: Refluxo gastroesofágico (GOR) em crianças: Tempo de mudança? Dr. Brenda M Button
INTRODUÇÃO A maior parte das técnicas de fisioterapia para o peito utilizadas em crianças são adaptações das que são utilizadas em pacientes mais velhos que apresentam produção diária de expectoração. Esta aproximação não levou em conta os aspectos únicos nas crianças muito novas. Os objectivos deste artigo são:
Diferenças entre crianças e indivíduos mais velhos com fibrose quística • As crianças são imaturas e
não simplesmente pequenos adultos. “…leva a um aumento da pressão no estômago…” Na criança, o esófago é proporcionalmente muito mais estreito e curto do que no adulto. As crianças são frequentemente alimentadas com líquidos. A sua musculatura (o arranjo e condição dos seus músculos) é imatura e por isso passam mais tempo deitados, mesmo depois das refeições. Têm ainda a tendência para ingerir mais do que o seu estômago consegue conter e por isso bolsam, vomitam ou cospem depois das refeições. Se estiverem sentadas, os músculos imaturos que suportam a coluna vertebral permitem uma posição curvada que leva ao aumento da pressão sobre o estômago e, consequentemente, ao refluxo gastroesofágico com mais frequência. O refluxo gastroesofágico é comum em crianças com menos de um ano, sendo a incidência em crianças normais de 18 a 40%. Descobriu-se em vários estudos que é mais frequente em crianças com fibrose quística. A maioria acaba por ultrapassar o refluxo gastroesofágico quando chegam aos dezoito meses ou dois anos, à medida que vão amadurecendo, comendo alimentos mais sólidos e passam mais tempo em posições verticais. Pode o refluxo gastroesofágico afectar
os pulmões? Como se comporta um bebé que tem refluxo
gastroesofágico? Refluxo gastroesofágico em pacientes
com fibrose quística Em quatro estudos diferentes efectuados com crianças
com e sem fibrose quística, ficou demonstrado que as posições
que favoreciam a drenagem do refluxo (cabeça inclinada de 30
a 45 graus) originavam um aumento das ocorrências de refluxo
durante o tratamento. Estudo de cinco anos em que se investigaram
os efeitos da fisioterapia normal com a cabeça inclinada (SPT
em inglês) comparativamente à fisioterapia modificada
sem a cabeça inclinada (MPT em inglês) em pacientes com
refluxo gastroesofágico. O regime de tratamento normal resultou num número bastante maior de episódios de refluxo gastroesofágico do que no regime com o tratamento modificado. Os pais concordaram que diariamente as suas crianças fossem colocadas aleatoriamente nos grupos de tratamento – normal e modificado. Quando já eram mais crescidos, incluímos actividades físicas na sua rotina diária. Estas actividades físicas incluíram correr, saltar em trampolim, andar de triciclo, soprar, jogos de riso e terapia de pressão expiratória positiva (em inglês PEP, na forma de ‘Bubble PEP’).
Ambos os grupos possuíam um boa função
pulmonar cinco anos após terem entrado para o estudo. No
entanto, o grupo sujeito ao tratamento modificado tinha bastante
melhor função pulmonar e menos alterações
visíveis nos raios-X torácicos.
“…protegeu-as de um aumento do refluxo
sem deixar Do estudo, podemos concluir que as crianças no
grupo sujeito ao tratamento modificado, sem a cabeça inclinada,
não foram prejudicadas. Pelo contrário, verificou-se
que estas tinham aumentado ligeiramente (significativamente em termos
científicos) a sua função pulmonar e que apresentavam
menos alterações nos raios-X torácicos do que
as crianças do grupo de tratamento com a cabeça inclinada.
Isto verificou-se já em idades dos cinco a seis anos. Especulamos
que a razão para esta diferença pode ter estado no facto
de as protegermos de um aumento do refluxo. E em relação a crianças
mais velhas, adolescentes e adultos com fibrose quística? “Foi-lhes oferecida uma experiência de terapia com máscara PEP na posição de sentado…” Seis dos nossos jovens pacientes queixaram-se repetidamente de sintomas de refluxo quando estavam na posição de cabeça inclinada (favorecimento de drenagem). Também recorriam frequentemente a hospitais para tratamento de infecções no peito. A sua função pulmonar continuou a deteriorar-se mesmo com o tratamento máximo. Foi-lhes oferecida uma experiência de terapia com máscara PEP na posição de sentado (ver fotografia abaixo). Acharam-na muito mais confortável do que a fisioterapia com a cabeça inclinada, pelo menos no que diz respeito a sintomas de refluxo. Elaboramos gráficos com dados da sua função pulmonar durante os últimos dois anos em fisioterapia com cabeça inclinada e antes de iniciarem a terapia com a máscara PEP na posição de sentado. Depois, fomos registando progressivamente a sua função pulmonar nos dois anos seguintes. Ficamos surpreendidos ao descobrir que tinha havido uma melhoria significativa nos seis primeiros meses (ver gráfico FEV1 acima) e que esse patamar foi mantido nos dezoito meses subsequentes. Calculamos o número de dias por ano passados no hospital para tratar infecções no peito durante o último ano com fisioterapia normal de cabeça inclinada e comparámo-lo com o primeiro ano de terapia com máscara PEP na posição vertical. Todos passaram menos dias no hospital no primeiro ano com máscara PEP na posição de sentados e acharam-na muito mais confortável em termos de sintomas de refluxo. Este artigo foi publicado em 1998 no Australian Journal of Paediatrics. Temos em curso um estudo a ser feito em adultos com fibrose quística. Que tipos de fisioterapia é que se praticam
actualmente no mundo em crianças com fibrose quística? • Aproximadamente um terço dos centros
de tratamento analisados efectuava o rastreio a recém-nascidos.
Isto confirma que muitas crianças iniciam a fisioterapia muito
antes do que acontecia anteriormente à descoberta do gene da
fibrose quística (CF) e da introdução do rastreio
em recém-nascidos. “…evidências científicas em vez da prática tradicional.” Que alterações deveríamos considerar para a fisioterapia do peito? • A criança deveria ser considerada um
ser diferente e imaturo. Não deveria ser tratada como se fosse
simplesmente um adulto pequeno. • No entanto, não recomendamos que modifique as suas técnicas de fisioterapia do peito sem falar primeiro com o seu fisioterapeuta e o seu médico.
b.button@physio.unimelb.edu.au Nota do editor: Contactem-me para obter cópias das referências: editor@cfww.org |